Laura
(nome fictício) tinha apenas 6 anos quando foi abusada pela primeira
vez. A menina foi crescendo, caminhando para a adolescência e até os 12
anos a violência continuava. Os repetitivos atos de abuso só foram
cessados no último mês de julho, quando enfim o homem a quem um dia ela
chamou de pai confessou o crime e foi condenado. Assim como Laura, a
cada 15 horas uma criança ou adolescente era vítima de abuso sexual na
Paraíba nos primeiros 3 meses deste ano.
O dado de casos confirmados é o mais
recente do Centro de Referência Especializada de Assistência Social
(Creas) do Estado e mostra que no período foram registrados 149
ocorrências, sendo 110 vítimas meninas e 39 meninos.
Em 2013, os números também assustam.
Conforme o órgão da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Humano (Sedh)
foram 665 vítimas e a maioria também foi de meninas, com 515 casos.
O atendimento no Creas está entre os
primeiros procedimentos direcionados para a assistência às crianças e
adolescentes que sofrem violência, abuso ou exploração sexual. Para
agilizar o julgamento dos suspeitos, evitar que eles reincidam no crime e
proteger a vítima, a Coordenadoria da Infância e Juventude (Coinju) do
Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) desenvolve o programa ‘Justiça pra
Te Ouvir’, que realiza audiências para colher o depoimento das crianças
e adolescentes vítimas de abuso e de outros crimes que infringem o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Para coletar o depoimento dessas
crianças, os juízes das comarcas paraibanas solicitam o projeto que
funciona como um consultório móvel onde uma equipe multiprofissional faz
a escuta da vítima. A conversa é monitorada por câmeras e em outra sala
o magistrado acompanha o depoimento. “Na metodologia aplicada no
programa ‘Justiça pra Te Ouvir’ é recomendado incentivar a criança a
falar livremente o que se passou, sem externar comentários de juízo;
demonstrar que estamos compreendendo a angústia dela e dizer
enfaticamente à criança que ela não tem culpa pelo abuso sexual. A
maioria das vítimas de abuso pensa que elas foram a causa do ocorrido ou
podem imaginar que isso é um castigo por alguma coisa má que tenham
feito”, explicou o juiz coordenador da Vara da Infância e Juventude do
TJPB, Adhailton Lacet Porto.
A supervisora e entrevistadora forense
que realiza as entrevistas com as vítimas, Janecleide Lázaro Oliveira,
lembra ainda que as declarações das crianças e adolescentes são feitas
através do “Depoimento Sem Dano” em uma sala com elementos lúdicos para
facilitar a abordagem. “A violência sexual envolve traumas, estigmas e
segredos. Conhecer os meandros dessa realidade, a partir da fala da
criança vítima, exige que se estabeleçam interação e vínculo de
confiança entre ela e o entrevistador. Há também o cuidado para
identificar as falsas denúncias de abuso sexual”, explicou a analista
judiciário.
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* Em cumprimento ao ECA, o nome da criança na reportagem e o município de ocorrência do crime não foram citados.
Maioria das vítimas são meninas de 4 a 6 anos:
Diante
dos casos atendidos pelo Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), a
situação passada por Laura ilustra o perfil da maioria das vítimas de
abuso sexual: meninas na faixa etária dos 4 aos 16 anos. Outro agravante
é com relação à procedência do autor do crime que, geralmente, é alguém
do convívio familiar da criança ou do adolescente.
“O
abuso e a negligência estão altamente associados à pobreza e a famílias
multi-problemáticas. Ou seja, que possuem alcoolismo parental, abuso de
drogas, doenças psiquiátricas,violência doméstica e isolamento social.
Também existe uma forte correlação entre crianças abusadas e educação
precária dos pais, desemprego, pobreza de cuidados e atenção”,
acrescenta o juiz Adhailton Lacet. Considerando esse perfil das vítimas,
os atendimentos realizados pelo Justiça pra Te Ouvir solicita a
presença de profissionais da assistência social do município para suprir
outras necessidades da vítima e da família.
“Durante
a coleta do depoimento da vítima ou testemunha, a entrevistadora já
analisa se ela encontra-se com alguma alteração psicoemocional e até
mesmo nos casos de extrema pobreza, de modo que registra em audiência se
há ou não necessidade de tratamento psicoemocional ou a presença da
secretaria de serviço do município para inclusão da família nos
programas de atendimento social”, declarou o magistrado.
Programa ajuda a definir sentenças:
O
Programa ‘Justiça pra Te Ouvir’ foi criado pelo TJPB em cumprimento a
uma recomendação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) expedida em
novembro de 2010. Conforme o documento, os Tribunais de Justiça devem
criar serviços especializados para a escuta de crianças e adolescentes
vítimas ou testemunhas de violência nos processos judiciais.
Assim
como o ambiente adequado para a coleta do depoimento especial, os
profissionais que entrevistam as crianças também devem estar capacitados
para o procedimento.
Para
os magistrados, o formato idealizado para coletar os depoimentos tem
ajudado nas definições das sentenças quando as crianças ou adolescentes
são parte no processo, sobretudo porque ameniza o sofrimento da criança
em ter que enfrentar o ambiente jurídico e viver o processo de
revitimização.
“Nós
precisamos desse auxílio porque a criança quando é violentada sofre
vários danos e isso gera uma dificuldade no momento do depoimento. Para
uma criança ou adolescente enfrentar um fórum nesse momento é um
ambiente hostil. O que nós queremos é extrair a informação da criança,
mas minorando os danos às vítimas”, comentou o juiz da Infância e
Juventude da Comarca de Patos, no Sertão do Estado, Hugo Zaer.
Já
o juiz auxiliar da Infância e Juventude de Campina Grande, Max Nunes,
destacou que a iniciativa é importante para identificar a autoria do
crime. Contudo, ele lembrou que é necessário que os demais órgãos de
proteção aos direitos da criança e do adolescente também atuem para
prevenir os casos de violência. “Ainda são necessárias muitas ações,
desde campanhas educativas até um maior rigor na legislação. É preciso
um olhar mais atento do Estado e das prefeituras para evitar que a
violência aconteça. As políticas que nós temos ainda são muito
escassas”, criticou.
MPPB: 1,8 mil denúncias este ano:
Dados
da Central de Apoio Operacional às Promotorias da Infância e Juventude
(Caop) do Ministério Público Estadual (MPPB) recebeu 1.832 denúncias, do
dia 1º de janeiro até o último dia 29 de outubro. Os números foram
repassados pelo canal de denúncias da Secretaria da República de
Direitos Humanos, Disque 100 ao órgão estadual.
A
coordenadora do Caop, Soraya Escorel, lembrou que o MPPB apura as
denúncias e também desenvolve trabalhos preventivos de violência contra a
criança e o adolescente. Para a promotora, é imprescindível a atuação
conjunta dos órgãos de proteção aos direitos da criança e também a
necessidade do apoio às famílias das vítimas.
“A
intervenção precisa ter um caráter de apoio e fortalecimento junto às
famílias acompanhadas, almejando a concretização da proteção de crianças
e adolescentes vítimas de abuso sexual.
Entendemos
a necessidade de se fortalecer a rede de atendimento para que num
futuro próximo possamos nos orgulhar das ações dos nossos profissionais,
que só terão maior eficácia se forem feitas em conjunto e com a união
de várias entidades e órgãos governamentais afetas à criança e ao
adolescente”, defendeu.
Fonte: Jornal da Paraíba

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