Devorar
um suculento prato de larvas, gafanhotos puxados no alho ou formigas
crocantes pode parecer prova de resistência de um reality show qualquer,
mas, se depender da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e
Alimentação (FAO), pode se tornar uma prática comum no dia a dia de
qualquer terráqueo.
Questionado sobre a resistência que fatores culturais
podem gerar especialmente entre os ocidentais, Paul Vantomme
- representante da organização em Roma - lembra o quão esquisito podia
parecer para os mesmo ocidentais, há não mais de 20 anos, comer peixe
cru. “Com a globalização, o sushi, aos poucos, se instalou nos
restaurantes, nas cidades, e agora é uma coisa normal. Isso não quer
dizer que vamos comer sushi todos os dias. Comemos quando temos vontade,
outro dia fazemos um churrasco ou uma feijoada. Por que não, uma vez
por mês, comermos algo exótico, como insetos?”, diz ele, apostando que
ainda se tornará natural, vez ou outra, trocarmos o churrasco por uma
macarronada com almôndegas feitas de larva.
| Receitas |
| Tacos com gafanhotos |
| Separe cerca de mil gafanhotos. Deixe de molho por 24 horas. Ferva e deixe secar. Frite em uma panela com alho, cebola, sal e limão. Abra as tortillas e, além de uma porção de gafanhotos, acrescente molho de pimenta e guacamole. |
| Churrasquinho de larva |
| Coloque as larvas em uma panela com manteiga e alho e deixe lá até dourar. Corte a cabeça e sirva. |
A Tailândia é outro país onde o consumo de insetos é
regular. Segundo o representante da FAO, além de uma prática saudável, a
opção pelos insetos é também uma garantia de renda para moradores da
região. “Hoje, na Tailândia, mais de 20 mil pequenos produtores têm uma
renda oriunda da criação de insetos para comer ou como ração para
animais”, afirma Vantomme, um belga que viveu por anos no Brasil e
acredita que a produção de insetos possa se tornar uma atividade comum
no País. “O objetivo da FAO é, em primeiro lugar, levar este
conhecimento aos nossos países membros, para que eles possam estar
cientes dessa oportunidade, e também fazer uma transferência de
tecnologias, de experiências sul-sul, por exemplo, da Tailândia para o
Brasil , ou do Brasil para Angola. É uma oportunidade fantástica que
pode melhorar as condições de vida dos pequenos produtores”, destaca.
Insetos x Fast Food:
Ao incentivar a produção de insetos, no entanto, a FAO não pretende que, de um dia para o outro, povos que há dezenas de gerações fazem de sua fonte de proteína exclusivamente alimentos como carne bovina e soja estejam ingerindo, quase à força, grilos e cupins. Os dois principais objetivos, esclarece Vantomme, são fazer com que povos hoje adeptos da entomofagia (a prática de comer insetos) não percam esta tradição: “a influência das dietas europeias e americanas, com McDonald’s e pizza, faz com que as dietas tradicionais percam cada vez mais o prestigio, a importância que têm”, diz. E, além disso, introduzir a criação em larga escala dos insetos, inicialmente, na ração para os animais, “substituindo parte da soja e da farinha de peixe, que são muito caras e importantes como fonte de proteína”.
Ao incentivar a produção de insetos, no entanto, a FAO não pretende que, de um dia para o outro, povos que há dezenas de gerações fazem de sua fonte de proteína exclusivamente alimentos como carne bovina e soja estejam ingerindo, quase à força, grilos e cupins. Os dois principais objetivos, esclarece Vantomme, são fazer com que povos hoje adeptos da entomofagia (a prática de comer insetos) não percam esta tradição: “a influência das dietas europeias e americanas, com McDonald’s e pizza, faz com que as dietas tradicionais percam cada vez mais o prestigio, a importância que têm”, diz. E, além disso, introduzir a criação em larga escala dos insetos, inicialmente, na ração para os animais, “substituindo parte da soja e da farinha de peixe, que são muito caras e importantes como fonte de proteína”.
A influência das dietas europeias e americanas, com
McDonald’s e pizza, faz com que as dietas tradicionais percam cada vez
mais o prestigio, a importância que têm.
Além de muito mais barata, a farinha que pode ser
conseguida a partir de insetos secos e triturados não gera os impactos
negativos para o meio ambiente desencadeados pela produção de outras
substâncias. “Os impactos ambientais tanto para a produção de soja como
para a produção de farinha de peixe são consideráveis. A grande
potencialidade dos insetos na criação em larga escala é justamente que
para eles o desperdício orgânico é nutrição, é comida. Eles podem
transformar uma parte desse desperdício orgânico em proteínas de alta
qualidade, diretamente consumíveis pelo homem”, diz Paul Vantomme.
Baixo custo:
Outra vantagem apontada pelo representante da FAO é o baixo custo para se produzir insetos. “Com US$ 50 é possível ter os equipamentos necessários para a criação de grilos, por exemplo, permitindo que pessoas que não possuem terras possam criar insetos. O material orgânico para alimentar esses insetos também é de fácil manipulação. Restos de comida que colocamos fora podem alimentá-los”, explica.
Outra vantagem apontada pelo representante da FAO é o baixo custo para se produzir insetos. “Com US$ 50 é possível ter os equipamentos necessários para a criação de grilos, por exemplo, permitindo que pessoas que não possuem terras possam criar insetos. O material orgânico para alimentar esses insetos também é de fácil manipulação. Restos de comida que colocamos fora podem alimentá-los”, explica.
De acordo com Vantomme, alguns países estão muito
avançados na criação industrial, como a África do Sul. Outros, como a
Tailândia, se destacam em escala familiar. “A produção de insetos é
possível para todo mundo, tanto para os países em desenvolvimento,
quanto para os países desenvolvidos. Tanto para a pequena produção,
quase doméstica, como para o investimento de milhões de dólares na
criação de grandes unidades industriais”, afirma.
Vantomme vê oportunidades na área para o Brasil. “O
processamento dos insetos é muito fácil. Crescem muito rápido, em três
semanas, um mês já temos rotação. E, uma vez que estão adultos, basta
colocar na água quente para matá-los e depois deixar secar ao sol, fazer
um tipo de farinha e vender como um complemento para as rações de
frangos ou para a criação de camarões. Os insetos podem ser uma grande
oportunidade para a indústria de camarões do nordeste brasileiro”, diz.
Um longo caminho ainda deve ser percorrido até que os
gafanhotos conquistem seu lugar ao sol ao lado do sashimi, mas a FAO
promete continuar incentivando a troca de conhecimento e tecnologia
entre os países para que a entomofagia saia das tribos e comunidades
asiáticas e africanas e ganhe o mundo, e não só a título de prato
exótico em restaurantes luxuosos, como no dinamarquês Noma (o melhor
restaurante do mundo pela lista San Pellegrino).
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